
O ano era 1997 e o país, Alemanha (*). Eu, Christoph e uma menina de nome e cabelos estranhos pegamos o trem em Wittenberg com destino a Berlim. Lá chegando paramos em um supermercado com a missão de comprar alguma coisa para me divertir. Para eles não era necessário, a diversão era outra. Compraram assim uma garrafa de vodka e outra 2 litros de Coca-Cola. Eu estava assustado e animado ao mesmo tempo.
Passamos no McDonnald‘s para lanchar. Em meio a confusão escutei uma voz de mulher gritando ao longe “Cláááudia…”. Olhei para todos os lados, procurei, inconscientemente e quis puxá-la pelo braço e dizer “me ajuda com essa gente esquisita!“. Mas ela se misturou na muvuca e não vi um rosto.
Lanche feito hora de partir, destino, show do No Doubt.
Não lembro direito mas acho que fomos pra lá de metrô. Seguimos o fluxo (de jovens tatuados e cabelos coloridos, quase clubbers) e chegamos num campo grande e aberto. Lá, como uma grande praça, os jovens deitavam no chão, corriam, brincavam e se embebedavam.
Meus amigos olharam pra mim e disseram `it’s time my friend`. Christoph abriu a Coca e disse `Want some pure? I think you should` Dei boas goladas no refri e ele virou o restante de meia garrafa no chão. Olhei curioso. Abriu a vodka e completou os 2 litros. `That’s it, have fun, we don’t have much time and you have to be cool within minutes!`. Meu Deus. Eu nunca tive intimidade com vodka e com 17 anos confesso que a intimidade era ainda menor. Fechei os olhos e dei uma golada cinematográfica.
`How was it?` perguntou Christoph. Hmm nothing special, respondi. Na verdade eu tinha tirado de letra. Estava até gostoso! `Keep working then..` E fui bebendo e bebendo. Quando assustei meu inglês havia melhorado mais de 100% e a amiguinha tinha ficado, pasme, linda! Que maravilha! E comecei a sorrir, cantar, conversar.
`We have to go now, drink the last and throw it away`. – Yes sir!! Babujei a garrafa, molhei a blusa e soltei um arrotinho simpático no final. Deixei a garrafa (pela metade) num canto e me levantei.
Woooow, giro de 360 e wooooowww… não sinto as pernas! Hahaha gargalhadas. Encosta na árvore, segura, respira fundo e vai! Ok, agora caminhamos. Chegamos no lugar do show e nos misturamos a centenas de pessoas que, mais ou menos, simulavam uma fila. `Stay here, we’ll be right back‘. Ok brother! I won’t go anywhere haahahaha gargalhadas.
De repente estou sozinho, bêbado, com dificuldade de fixar o olhar e ficar de pé. Isso tudo em Berlim, do lado de fora do show do No Doubt e não falando mais do que “ja, nein, danke, bitte” em alemão. Onde foram os dois? Aqueles, glup, filho da… `hi there!`. Ah, chegaram né! `Ready to rock?! Yeees!!`
Entramos no show. Daí pra frente não lembro de muita coisa. Lembro de um galpão gigantesco e muito lotado. Lembro de uma banda de abertura que eu nunca vi mais gorda. Rodinhas de mosh, pessoas estranhas e de repente uma loira com roupa de ginástica pulando no palco. Era o No Doubt. Todos sumiram e fiquei sozinho de novo. Lembro que tudo rodava e sentei no chão. De repente meus amigos apareceram. Nunca fiquei tão feliz! `Can you see my eyes ball, are they big, are they big?` dizia o sujeito. Hein? – pensei – minha cabeça tá rodando maluco me deixa dormir!!

Fotos genéricas do No Doubt em ação
Aaaahhh!!! – a multidão gritou. “You and meeeee, we used to be togheter…” ahn, essa eu conheço(**)!! Senti um puxão no braço me levantando, `go there!!` me disse Christoph me empurrando. Fui pro meio do povo e assisti um pouquinho mas, estava tudo tão escuro, o som tão alto e às vezes, tão longe… Acaba logo! – pensei. E acabou. A loira (era até bonita, muito prazer) também muito simpática com a platéia, disse algumas palavras e se foi. Voltei pro meu cantinho e com pouco tempo encontrei os dois novamente.
Saímos do galpão, caminhamos um pouco e pegamos o metrô. Nosso vagão estava vazio. Sentamos nós três e eu senti a cabeça pesada. Pra falar a verdade, senti um pequeno mal estar de longe no estômago. `Aaai… se eu reclinar a cabeça pra trás tudo passa.`
BLAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARRRRGHHH!!!!!!!
Voltei a cabeça pra frente com violência explodindo em vômito e quase atingindo a garota.
Silêncio
Silêncio
`Man, what was that are you ok?`
Silêncio
`I think that… I can’t play with vodka`
hahahahahaha gargalhadas! e mais gargalhadas e mais gargalhadas
Mudamos de lugar e, graças a Deus, chegamos no centro novamente. Novamente McDonnalds. O trem de volta era umas 5hrs da manhã e isso devia ser perto de 1hr. A estação só abriria às 4 e precisávamos de um lugar quente para descansar.
Foi só chegar no McDonnalds que o meu estômago aprontou novamente, `I need a toilet, a toilet NOW!!!` Entrei e BLAAARGH!! Mais uma vez… Ufa, foi por pouco. Mas é melhor não comer nada, eu só queria uma cama quente meu Deus.
Ficamos horas no McD olhando pro teto e depois descemos pra estação fechada. Sentamos no chão e esperamos abrir, quase congelando (diga-se de passagem). Mas felizmente pegamos o trem e voltamos pra casa. Chegando em Wittenberg mais uma gofadinha (a esta altura todos já estavam acostumados) e então encontramos a mãe do Christoph que nos aguardava anciosamente. `No one needs to hear details about the night ok?` – ele me disse, e assim foi, até hoje. hehe
E o No Doubt?
Bem, antes de voltar ao Brasil comprei por lá mesmo o Tragic Kingdom e foi paixão instantânea. Excelente álbum, excelente banda.

Depois parei de acompanhar. Lançaram outro disco e eu só ouvi X-Girlfriend que tocava na MTV. Tempos depois ouvi dizer que a banda tinha acabado e que a bela e talentosa Gwen Stefani estava fazendo carreira solo. O primeiro disco foi quase um No Doubt o segundo foi quase uma Britney Spears.
Esse ano, em meio a tantas notícias boas no mundo da música, mais uma, No Doubt estará de volta!! Oba!! Vodka!!

(*) Sim, ainda temos algumas histórias a contar.
(**) Nessa época Don’t Speak era trilha sonora de Malhação