Amizade

by

saulo

Hoje eu estava voltando pra casa dirigindo sozinho quando começou a tocar a música My Hero do Foo Fighters. Impossível não lembrar do Saulo. Impossível não lembrar que foi das poucas músicas que ele conseguiu aprender a tocar no violão e que nós tocávamos juntos. Fazia parte do nosso pequeno repertório que ensaiamos para tocar num bar que nunca teve. Porque estou falando isso? Porque tocar neste assunto? A verdade é que eu preciso desabafar uma coisa, até hoje eu não superei a perda do meu melhor amigo e me pego diversas vezes pensando nele e no que aconteceu. Já se foram 3 anos e mesmo assim não consigo deixar de lado, ignorar e seguir em frente sem lembrar.

Eu nem me dava conta do tamanho da nossa amizade mas hoje quando penso nos filmes e músicas que gostávamos e o tanto que a opinião dele influenciava a minha (e vice-versa) vejo que a reciprocidade da amizade é algo único e impagável. Toda vez que alguém falar de U2, Los Hermanos, Placebo e Smashing Pumpkins ou, de Tarantino, Scream (Pânico), Irreversível ou Bruxa de Blair, não tem jeito, sempre virá o Saulo a minha mente.

Mas afinal de contas o que aconteceu? Bem, é uma longa história, e tudo começou no dia 21 de Agosto de 2005

No dia anterior eu e minha namorada tínhamos ido na casa de um amigo e passamos a noite bebendo e jogando baralho. No domingo (21) de manhã, outra pessoa estava brincando com meu celular e de repente falou: ‘Que susto, eu estava bem jogando o joguinho e de repente aparece o Saulo’. Era uma ligação da casa dele mas não era ele, era sua mãe.

-Tudo bom, o Saulo está com você?
-Não, não sei dele não… porque?
-Porque ele não voltou pra casa e não é de fazer isso.
-É, já faz uns dias que não falo com ele e muito tempo que não saímos, mas posso ver com o pessoal se alguém saiu com ele ontem.
-Faça isso por favor porque estou muito preocupada, um policial acabou de passar aqui em casa e veio devolver um porta CD que, segundo ele, o Saulo esqueceu na viatura. Ele foi detido numa blitz dirigindo embriagado e conduzido ao IML para fazer exame que constate uso de álcool, em seguida conduzido ao Detran e liberado por volta de 11hrs mas até agora (14hrs) não apareceu em casa.
-Ok, vou fazer algumas ligações e te retorno.

Pensei, ‘-Saulo aprontou mais uma‘. Liguei então nos Baratas e eles disseram que sabiam de uma pessoa que estava marcando de sair com ele. Pedi que ligassem pra pessoa e retornassem dizendo se ele estava lá. 10 min depois e a notícia, ele não saiu com a pessoa, e tão pouco estava com ela. Estranho.

Saímos, fizemos compras pro almoço e voltamos. Na volta fiz mais meia dúzia de telefonemas e ninguém dava notícia. No final da tarde resolvi então passar na casa dele pra saber direito o que se passava.

Chegando lá, perto do Hospital Evangélico na Serra, encontrei a família preocupada e mais algumas novidades. Após centenas de ligações a mãe, Dona Vânia, descobriu a pessoa com quem ele saiu e onde tinha ido. A pessoa disse que ficou na boate até 3hrs da manhã e quando foi embora deixou o Saulo completamente bêbado e bebendo água para ‘melhorar‘ e ter condições de dirigir. Era tudo que tínhamos. Tentaram acionar a polícia para abrir uma investigação mas esta alegou que só pode dar uma pessoa como desaparecida transcorridas 48 hrs e não estávamos nem nas primeiras 24, paciência.

Contudo, Dona Vânia já tinha uma teoria, ela alegou que o Saulo fora flagrado dirigindo embriagado, o carro foi rebocado e ele estava com dificuldades financeiras. Devido a tamanha confusão, teria ficado com vergonha de voltar pra casa e estava em algum lugar pensando na vida e na bobagem que fez. Por mais raiva que pudéssemos ter do comportamento de não dar notícia, no fundo, torcíamos para que realmente fosse isso e não algo pior. Fui embora e fiquei de ligar no outro dia para saber se teve novidades.

Dona Vânia sabia que o Saulo poderia estar sim muito envergonhado de voltar para casa mas sabia também que ele jamais comprometeria algo que prezava tanto, o emprego. O Banco do Brasil resolveu chamá-lo na hora certa. Dois anos após fazer o concurso, quando o prazo estava quase vencendo, Saulo recebeu uma carta fazendo a convocação e foi este bom emprego que garantiu as festas, noitadas e quebradeiras em que se metia, quase que de segunda a segunda.

Mas naquela segunda ele não foi trabalhar. Não apareceu, não ligou, não nada. O pessoal da agência ficou preocupado ao saber da história e disse que aquilo não iria constar como falta grave em seu bom histórico. Menos mal. Voltamos então pra casa e pro telefone pra confirmar se alguém tinha notícia. Nada.

As esperanças de que ele iria aparecer a qualquer momento eram grande. Eu me imaginava chegando no meu prédio e ele escondido na rua me abordaria  e diria  ‘cara aprontei e preciso da sua ajuda’. Eu iria dizer: ‘-Seu filho da mãe! Não importa o que você fez, não coloque todo mundo doido’. Mas este dia também não chegou.

Na terça-feira o clima pesou. Foram duas faltas injustificadas no serviço e nenhum contato com a família. Passadas as 48 horas a polícia entrou e a Delegacia de Pessoas Desaparecidas abriu processo para apurar o que poderia estar acontecendo. Até então, para preservá-lo, a família não havia feito estardalhaço (afinal de contas todos esperavam que a qualquer momento ele iria aparecer com o rabo entre as pernas como um cão arrependido) mas a falta de notícias nos obrigou a agir. A mãe e irmã entraram em contato com todas as televisões, rádios e jornais. Seu pai em Brasília acompanhava aflito sem saber como ajudar. Eu, fiz um e-mail com o caso e distribui para toda Belo Horizonte com aqueles dizeres chatos “mande para todos os seus amigos”. Fiz também um site onde ia reunindo todas as reportagens que iam saindo nos jornais:

www.saulofrois.cjb.net

Os dias foram passando e nada. Com a divulgação do caso começaram a aparecer os trotes e também as falsas pistas. Não sei como alguém pode brincar com uma situação destas mas a verdade é que Dona Vânia recebeu várias ligações de pessoas dizendo “o Saulo tá aqui com a gente”, “eu sequestrei o Saulo”, “o Saulo me falou que não quer voltar” e investigou calmamente uma a uma.

Quando estávamos às vésperas de completar uma semana resolvemos marcar uma manifestação pedindo agilidade das autoridades e também para chamar a atenção da sociedade. Quando saiu do Detran naquele sábado (dia 20), Saulo foi visto por uma amiga que fazia caminhada na Praça da Liberdade e esta foi a última pessoa que deu notícias de seu paradeiro. Inclusive é a única prova (além de uma folha assinada dizendo que retirou os pertences) de que sequer saiu do Detran.

Fizemos uma grande mobilização com os amigos e reunimos todos na Praça da Liberdade para distribuir panfletos com a sua foto e colar nos postes da cidade. Com muito esforço a família foi conseguindo a ajuda de uma gráfica aqui, papelaria ali e assim conseguiu papel e cola o suficiente para pregar cartazes de DESAPARECIDO por boa parte desta cidade.

Em minhas andanças (com o cartaz) descobrimos uma segurança da Rodoviária que jurava tê-lo visto por ali durante a semana. A nossa cabeça foi a mil. O pior do que uma notícia ruim é a falta de notícia pois aí ficamos à mercê da própria criatividade que pesa sempre para o pior lado.

Dona Vânia, coitada, como mãe, sabe-se lá o que se passou naquela cabeça e no coração aflito. Se agarrava a qualquer pista e não desistia até que não houvesse mais a menor chance daquilo fazer sentido. Dentre as suas teorias estavam:

1) Foi visto numa agência bancária em companhia de um homem forte que o fazia refém.
2) Estava preso num barraco numa favela e poderia ser forçado a manter relações sexuais e filmar filmes eróticos.
3) Foi visto por uma mulher turista num navio transatlântico que deixava o Rio de Janeiro rumo aos Estados Unidos, poderia ter chutado o balde e ido curtir a vida.
4) Devido ao stress da multa, humilhação com policias e dificuldades financeiras, teve um ataque de nervos e perdeu a memória. Ficou então vagando pela cidade ou até mudou de Estado sem ser percebido ou ter consciência.

Nada disso se confirmou. A conta não foi mexida e o celular não tinha registros de ligações feitas nem recebidas.

Assim o tempo foi passando e uma semana virou duas, que virou um mês, que virou dois, três, seis…

No começo eu tinha raiva. Achava que tudo não passava de uma travessura inconsequente do Saulo mas a falta de notícia foi me desesperando e pela primeira vez pensei na possibilidade real de nunca mais voltar a vê-lo. Pensei nos assuntos pendentes, nas coisas que queria perguntar e deixei pra amanhã. Pensei nos bons momentos e também naqueles que viriam. Imaginei nós dois com família contando pros filhos o quanto era boa a nossa época. Tudo estava ameaçado.

Após tanto pensar num final lógico praquela história (tirando a possibilidade de simplesmente nunca mais voltar a ter notícias) imaginei: ‘e se ele estiver morto em algum lugar escondido? Estamos aqui pensando se ele fugiu, se está com vergonha, se está sem dinheiro, se se prostituiu, se virou traficante e na verdade poderia estar este tempo todo morto‘.

Foi então que no dia 27 de julho de 2006, um mês antes do aniversário de um ano de desaparecimento, um grupo de jovens fazendo trilha na Serra do Curral encontrou uma ossada. Junto havia restos de roupa, um discman, e os documentos de Saulo Frois do Nascimento.

A busca havia chegado ao fim. O remorso por tudo de ruim que pensei me bateu. Ele realmente não estava agindo levianamente, estava sim em apuros. Se por um lado jamais superei a perda, por outro foi bom saber que houve um desfecho.

No enterro, vivi talvez o dia mais triste da minha vida. E quando os amigos presentes começaram a cantar O Vencedor enquanto o caixão baixava, não segurei a emoção.

Saulo costumava me ligar para falar sobre lançamentos da música ou do cinema e então fico imaginando o que ele iria achar deste ou daquele filme, ou, deste ou aquele CD. Com certeza iria gostar do Marcelo Camelo mas seu gênio ‘do contra’ ia preferir a Little Joy. Provavelmente ia na Madonna e com certeza já teria me ligado 10 vezes pra falar que o álbum novo do U2 sai no começo do ano e que estão começando a planejar nova turnê.

Acho que amizade é isso, a gente fica imaginando o que que o outro iria pensar a respeito das coisas. A amizade nasce quando o silêncio não é constrangedor.

Pra terminar vamos deixar uma frase de uma música que ele me passou ‘Quem sabe o que ter e perder alguém sente a dor que senti.‘ e assim vamos tocando os dias e a cada música que nos remete ao passado fica aquele misto de alegria e saudade, mas antes ter vivido e agora chorar do que deixar a vida passar incólume.

4 Respostas to “Amizade”

  1. Fred Bitt Says:

    Just for the record: eu também prefiro Little Joy.

  2. Bauer Says:

    Eu não conheci o seu amigo, mas me emocionei com seu texto… mas eu prefiro Marcelo Camelo!!!

    Saudade de vc encrenca!

  3. Flávia Says:

    Amor que lindo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    Que linda declaração de amizade!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Nem preciso dizer que durante a leitura desse texto, chorei horrores, né?

    O Saulo era sem dúvidas um cara ESPECIAL!!!!!

  4. Vânia Frois Says:

    Saber o que o Saulo ainda deixa em nós… parece masoquismo mas como alivia… A Alanis teve aqui em Beagá!… quase ouso dizer que, sem o Saulo, ela não é mais a mesma… e o que ele pensaria, ou melhor, faria com a Amy Winehouse… ou não… e os ‘designes’ de tudo o que está ao nosso redor… e propagandas, e políticas, e ‘Oscares’ e ‘Hadje Letteres’…
    e a comida que fiz e que ele gostava (fiquei sem fazer strogonof por muito tempo e sem usar o grill George Foremam)
    Foi sorte conseguir achar esta sua mensagem porque ainda peno para dominar o computador. Que bom. Vânia

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