Infeliz aniversário Lei Seca

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A Lei Seca parte de um princípio óbvio, quem beber não pode dirigir. Mas o problema não é tão fácil assim. Beber é uma tradição fortíssima no nosso país (e no mundo!). Aprendemos dentro de casa, na família, com os tios, com os primos, na escola, com os professores. Quase todo mundo bebe. Beber é inclusive um termômetro social. Quem não bebe, não raro, é excluído, deixado de lado e não consegue se misturar. Já quem bebe, tem história pra contar.

E o beber e dirigir? Outra tradição. Não há (ou não havia) quem bebia e não dirigia. O conselho era apenas “preste mais atenção”. O problema é que começaram a surgir os exageros, quer dizer, a fórmula bebida + direção é trágica desde o momento que o primeiro motorista alcoolizado entrou no primeiro carro. Fatalidade. O verdadeiro problema veio com as últimas estatísticas que apontavam um aumento substancial dos acidentes de trânsito no Brasil. Morre-se mais no trânsito brasileiro do que em países oficialmente em guerra. E destes acidentes, parte significativa eram causados pelo uso de bebida. Ou seja, é como a morte por cigarro, evitável.

As estatísticas ficaram tão alarmantes que alguma coisa deveria ser feita. Fizeram a Lei Seca. Mas a tal “Lei Seca” é uma palhaçada desde o princípio. A lei que existia já era o suficiente para frear (ou zerar) os abusos, desde que, obviamente, fosse seguida. Não era e não foi. Será um dia?

Antigamente a lei permitia beber uma (ou duas?) latinhas de cerveja e assumir a direção do veículo. A Lei Seca mudou este limite para quantidades ínfimas, onde até um inocente Cepacol ou bombom de licor seria detectado. Ah então quer dizer que a lei foi boa? Claro que não! Ninguém bate o carro com uma latinha de cerveja na cabeça. Quem bate o carro certamente está com litros e mais litros de cerveja no sangue. Ou seja, a lei antiga funcionaria desde que houvesse fiscalização.

“Ah mas está provado que uma latinha é suficiente para alterar os reflexos…” É mesmo? E está provado também que uma jornada de trabalho estressante seguida de congestionamento e notícias de Brasília também alteram os reflexos e mexem com os ânimos.

Pois bem, mas porque da tolerância zero? Isso tem uma causa plausível. Antigamente, na desculpa das 2 latinhas, o sujeito podia  perder a conta, empolgar e jogar um verde no policial, que na ‘camaradagem‘ ficavam elas por elas. Agora não, se vai dirigir, nem comece a beber.

O que mais mudou? Bem, aumentaram o valor das multas e tornaram o incidente, em caso de vítima, em crime culposo (com a intenção de matar). Isso deveria trazer implicações jurídicas mais severas acabando com o esquema de impunidade e cestas básicas.

Na prática, prática mesmo nada mudou. Durante o mês em que esteve em evidência a lei só serviu para causar pânico numa sociedade que não estava preparada para tamanho rigor. Era melhor fazer valer a lei antiga do que alterarem estes pontos, mas, ainda assim, a tentativa foi válida. Gerou-se uma imensa discussão no país inteiro e pela primeira vez o problema foi debatido.

Foi então que, no jeitinho, vieram soluções interessantes como os restaurantes que levavam o cliente em casa ou os ônibus de amigo que buscavam e levavam todos em suas casas. A coisa parecia que ia funcionar até que… os problemas afloraram.

1) Não se via blitz em lugar algum.

2) Começaram a surgir notícias da existência de 1 bafômetro pro Estado inteiro.

3) Notícias diárias de “100 bafômetros chegam hoje a Belo Horizonte” viraram piada.

4) Mesmo na blitz o sujeito não era obrigado a soprar.

5) Nem os motoristas flagrados pela mídia bêbados e batidos, eram penalizados.

Porque não beber e dirigir?

Além disso vieram os restaurantes, numa jogada cínica e sincera, com uma tentativa jurídica de suspender a Lei Seca, alegando prejuízos e demissão de pessoal. Uma vez que não era permitido beber, estavam ficando vazios.

Podemos pensar, PROBLEMA DELES!

Mas não é bem assim que funciona.

Na minha opinião, na verdade, este é um problema CULTURAL que exige educação de longo prazo e não uma solução imediata do dia para noite. A começar com o próprio problema das bebidas. Porque bebemos cada vez MAIS e cada vez MAIS CEDO?

Ninguém discute isso.

Quem não tem MAR vai pro BAR?

Não sei a origem do problema. Talvez seja um ponto de vista mais individual do que coletivo, mas, que os níveis de consumo estão aumentando isso estão. Se é ruim também não sei, porque eu mesmo adooro! Deixaria de beber? Provável que não.

Então, para mudar este quadro de violência no trânsito teríamos que ir até a raiz do problema em duas partes:

1) porque bebemos, ou, porque TEMOS que beber? Porque um restaurante sem bebida não tem graça? Porque uma festa sem bebida não tem graça?

2) Já que vamos beber, porque ir de carro? Porque não ir de ônibus? De táxi? De carona?

Aí entra a questão do descaso das autoridades. Tem ônibus de madrugada? Já ouviu a expressão “mofar no ponto?” Além disso, aos que se aventuram ou precisam, é seguro esperar um ônibus de madrugada? Tem a carona. Mas carona é fácil, você não bebe e pega carona com quem bebeu. Lavou as mãos. E o táxi? Esse é ótimo!! Em meio ao AUUGE da Lei Seca, nas primeiras semanas, quando os taxistas estavam rindo à toa do desespero de todos frente ao bafômetro o que fez a categoria? AUMENTOU AS TARIFAS! Isso mesmo, para celebrar a demana os táxis subiram de preço.

O cidadão fica no meio do fogo cruzado e nem a opção de se divertir lhe é garantida. Se correr pra qui toma ferro, pra lá chumbo.

Ontem no “Profissão Repórter” do Caco Barcellos na Rede Globo o problema da Lei Seca foi abordado e chegaram à genial conclusão de que os índices hoje são os mesmos de antes da Lei Seca. Ora, é claro. Todo mundo voltou a se comportar da mesma forma. E ainda ficava aquele tom hipócrita no ar “porque este jovem está bebendo e dirigindo?”

A resposta é simples, porque não tem fiscalização e porque não é interesse de ninguém mudar nada nem fazer a lei valer.

É possível conciliar bebida e direção? Pode parecer absurdo, mas eu acredito que sim. Acredito que a atitude dos condutores faz a diferença e seria ideal se caminhássemos para este grau de consciência social. Isso também não quer dizer que qualquer quantidade de bebida dê certo porque às vezes não dá certo nem ficar de pé quiçá dirigir. A solução deveria vir da consciência de cada um em dizer “não estou em condição” ou até mesmo “bebi, presto mais atenção, tenho noção de que meus reflexos estão alterados”. Bebeu e tá correndo? Tá caçando. E como a lei não pode dizer quem tem juízo e quem não tem, partimos do princípio de que todos não tem.

E o Deputado?

Que seja feito de Cristo. Vamos refletir no seu exemplo pelos próximos 2 mil anos.

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